20 de janeiro de 2012

Eu, Tu e... os Outros

Às vezes olho-me ao espelho e tento ver-me a mim própria como os outros me vêem. Reparo que fiz o risco à esquerda porque é como fica bem, vejo um dente meio torto que mais ninguém nota (uma vez que usei aparelho e nem era suposto haver essa ligeira diferença), reparo nos sinais da cara com um tamanho ligeiramente aumentado quando comparados com há 7, 8 anos atrás e depois apercebo-me:
a) Se fica bem o risco à esquerda então tenho de o fazer à direita porque a imagem que vemos no espelho não é a que "os Outros" vêem. Para eles verem como bem que fica o risco à esquerda (tal como o espelho me revelou) eu vou ter de parecer mal ao espelho, aos meus olhos, para que possa parecer "perfeita" aos olhos dos Outros;
b) Esse dente meio torto existe mas se os Outros não notam, para que me hei de ralar!? Ora, ora...;
c) Há pessoas que dizem que não tenho sinais nenhuns... que é normal, caso os tenha, que cresçam porque é da idade, disseram-me os Outros. Então, se eles acham normal porque vou estar eu agora a contradizer e a achar que é estranho?

Entretanto saio para um encontro amigável com uma espécie de quase amigo, possivelmente futuro namorado, com um mal assinalado encontro marcado. Vejo-o e leio-lhe a cara, a reação, os olhos, os trejeitos da boca, as palavras, o tom com que as proferiu... e concluo: "boa, não me achou gira... terá sido a ausência do risco ao meio ou o dente torto?".
Caminhamos num velho passeio cujo percurso fiz inúmeras vezes, não a passear mas a correr, sem revelar os pensamentos que outrora (leia-se fantasias) tive com ele em que escapulia para um abrigo e envolviamo-nos os dois. 
Aproximamo-nos e dou-lhe a mão, gelada e enxugada do suor frio que me escapara antes, e sinto como que um choque, um baque, no coração - "ai meu Deus, que é que acabei de fazer!!! As pessoas estão a olhar para mim e tudo!". Olhou para mim e sorriu, meio surpreso e especado. Olhou para os meus lábios. Calculando que me quisesse beijar, fui assombrada pelo pânico de o beijar em público... ali, desnundada, no meio de shopaholics, turistas e miúdos a tocar bongo.. " e os Outros, o que vão eles pensar... será que beijo bem!? E ele? Será que fazemos um par bonito?".

Tudo na vida, falando eu na minha, está ligado ao que me rodeia. Tal como acontece convosco. Imaginem agora interpretar mais além do que os outros dizem, deduzir os seus pensamentos por meio das suas reações e expressões faciais. É esse o meu Mundo... um Mundo em que as aparências por vezes parecem valer BEM MAIS do que a realidade. Simplesmente porque dos contactos supérfluos da Vida (ui, e tão supérfluos que são aquelas trocas de olhares numa breve passagem na rua!) jamais alguém se põe no lugar do outro, tentando (em vão) experimentar o que cada um de nós sabe, viveu e confronta no dia a dia. Julgar o outro faz parte da natureza humana... o chato disto é que aos meus olhos muitos dos pensamentos dos Outros me são revelados nessa breve troca de olhares. E sim, por vezes magoa... outras vezes mete dó... e ainda noutras, intriga-me...

Eu cá adaptei-me e vou-me adaptando. Mesmo sabendo o que estão a julgar de mim...
Continuo a pôr o risco da maneira bonita para os outros, quero que Tu gostes de ver o meu cabelo. O meu dente vai ficar sempre torto e Tu já sabes que ele está assim... já lá estiveste... os sinais, se forem problemáticos certamente que saberei disso na altura certa mas não pergunto mais se será normal a não ser ao meu médico.

E sim, Eu vou-Te beijar... nem que tenha uma câmara em direto para a TVI. Os outros vão gozar porque temos uns largos centímetros de diferença e vamos ter de nos adaptar... mas quando o meu cérebro e o meu coração deixarem de se deixar influenciar pelo que o cérebro e o coração dos Outros insistem em opinar, eu sei que os Outros é que vão ficar sem o Eu e sem o Tu. Teremos sempre o nosso SubMundo.

Gosto dos Outros, mas gosto bem mais do que o Tu e o Eu têm para partilhar e sem o Eu e o Tu nem sequer haveria os Outros porque todos os Mundos acabavam - o meu e o teu.

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